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Monthly Archives: janeiro 2009

“Assim como muitas palavras-chaves da filosofia oriental, `Zen´ não tem um equivalente exato em iutras línguas. Trata-se de uma palavra japonesa, derivada do chinês Ch´an ou Ch´anna, que por sua vez é uma corruptela da palavra sânscrita Dhyanna, usualmente traduzida como `meditação´. Mas essa é uma tradução errada porque, para um inglês, `meditação´ significa pouco mais do que o pensamento profundo e a reflexão, enquanto que na psicologia da Yoga Dhyanna é um elevado estado de consciência em que o homem encontra a união com a realidade definitiva do universo. O mesmo é verdadeiro no que diz respeito ao Ch´an e ao Zen, exceto que a mentalidade chinesa preferiu encontrar essa união através do trabalho da vida diária em ves de na meditação solitária numa floresta. Não há nada de` sobrenatural´ acerca do Zen, pois ele é uma constante atitude mental que tanto pode ser aplicada à lavagem de roupas como à execução de ofícios religiosos; e enquanto o iogue se retira do mundo para alcançar sua Dhyanna, o Zen é encontrado na comunidade monástica onde o mestre e discípulo partilham todo o trabalho para a manutenção do mosteiro – plantando arroz, jardinando, cozinhando, rachando lenha e mantendo o local limpo. Assim o Zen é para ser traduzido, o equivalente mais próximo é Iluminação, mas mesmo assim o Zen não é somente iluminação; é também o caminho para a sua conquista.”

De Allan Watts em A essência do Ch´an.

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O Brahmajãla Sutta é, em extensão, o segundo maior Sutra do Cânone Páli e um dos mais elaborados e multitemáticos nele encontrados. Este compõe-se de uma breve introdução que serve de motivo para introduzir duas principais seções que lhe seguem. Nesta introdução, Buda apresenta com rara finura psicológica os critérios básicos necessários para julgar com isenção e objetividade o que é dito ou debatido entre as pessoas – coisa que exige um autocontrole considerável.

Daqui somos introduzidos à primeira seção sobre Moralidade; o mais completo e detalhado tratado sobre o assunto no Cânone e que é repetido nos subseqüentes doze sutras. A par do seu valor espiritual e religioso, esta seção oferece um interesse inusitado e inestimável aos historiadores e cientistas sociais. É que na antiga Índia não existiam livros históricos, e esses profissionais dependem para suas pesquisas dos textos religiosos da época que freqüentemente descrevem, com minúncias, cenas da vida cotidiana, revelando os costumes, crenças, ocupações, etc.

A segunda divisão versa sobre as teorias especulativas reinantes à época, de cuja análise se encarrega completamente a introdução do Ven. Bhikku Bohi (ensinamentos búdicos), que segue.

Uma característica estrutural dos textos do Cânone são as repetições, que eram um meio mnemônico de ajudar a fixar esses ensinamentos na mente dos discípulos, já que a transmissão se fazia oralmente. No entanto, na nossa época isso se torna amiúde um empecilho para a leitura fluente dos textos. Conseqüentemente, convencionou-se adotar alguma forma de abreviação, que depende de cada tradutor.

Introdução: Brahmajãla Sutta e o pensamento budista.

Brahamajãla Sutta é o primeiro sutra do Dighanikãya, e lhe foi dado esta posição estratégica por deliberado projeto por parte dos compiladores do Cânone, tendo em vista sua significância tanto intrisecamente quanto em relação ao ensinamento do Buda como um todo. Assim como, em termos de posição, o sutra se encontra na entrada da coleção total dos discursos proferidos pelo Buda, assim também sua principal mensagem provê um prolegômeno ao Ensinamento inteiro como tal.  É, por assim dizer, a sentinela do portão da Doutrina, cujo selo de aprovação deverá ser obtido para que se possa cruzar a fronteira que separa o entendimento de Buda quanto à realidade, de todas as outras tentativas de uma interpretação refletiva da situação existencial do homem.

A suprema importância do Brahmajãla no contexto do pensamento budista surge da própria natureza do ensinamento de Buda – de seu objetivo e da metodologia que emprega para realizar esse objetivo. O objetivo do ensinamento é o atingimento do nirvana, o estado incondicional que está além da sucessão dos repetidos nascimentos e mortes que constituem o samsãra, a ronda da existência;  esta emancipação da ronda com todos os seus sofrimentos, acalma o processo de condicionamento que leva a uma renovação constante do ciclo. Agora, o que nos mantém em cativeiro são nossos defeitos morais (kilesa ).  Enquanto os defeitos morais, nossas paixões e delusões, se mantiverem  nos subconsciente, o ciclo da vida e morte se repetirá. A única maneira de dar termo a essa ronda é removendo as fontes que a mantêm em movimento, penetrando nas suas origens. A causa mais fundamental das nossas corrupções [morais] é a ignorância. Ignorância é a fonte da qual brotam, e a raiz que as mantém no lugar. Por esta razão, a chave para a destruição dos defeitos e para se ganhar emancipação da ronda, está na destruição da ignorância.

Ignorância é a incompreensão das realidades – uma cegueira espiritual que cobre a “verdadeira natureza dos darmas”, impedindo-nos de ver as coisas conforme elas são.  Seu antídoto é a sabedoria (pañnã), uma maneira de entender as coisas livre das distorções e perversões das predisposições subjetivas –  claramente, corretamente, precisamente. Como oposto à ignorância, sabedoria é o instrumento primário na busca da iluminação e da emancipação.

O atingimento do nirvana se processa em estágios, no último dos quais as corrupções são completamente erradicadas, sem deixar qualquer resíduo. Esta consumação não se dá, porém, fortuitamente. Como todo evento, faz parte de um processo universal de condicionalidade, e assim pode ocorrer somente como a culminância de um longo curso de desenvolvimento preparatório que lhe provê condições de apoio. Este curso começa da mesma maneira que termina, com um ato de entendimento. É a experiência do sofrimento [e o sentido de “urgência”] que impele um homem a procurar o ensinamento de Buda, mas é a sabedoria ou entendimento, que leva-no a aceitar o ensinamento e a pôr os pés no caminho.

Porquanto, para poder adentrar o caminho, ele deve chegar a entender que o sofrimento não é um mero acidente encrustado na vida que pode ser aliviado por simples paliativos, mas algo inerente à existência senciente em si; e ele deve chegar a compreender que sua causa não é algum conjunto de circunctâncias evitáveis, mas são suas próprias delusões e desejos, que ele pode endireitá-los seguindo o caminho prescrito. Este é o primeiro passo essencial; e assim como o último passo de uma longa jornada não difere em natureza do primeiro, mas somente na sua posição na série, assim também o irrompimento final da sabedoria pelo qual a ignorância é eliminada e iluminação ganha, não difere em essência, mas somente em força, clareza e poder de penetração, da primeira que levou o homem a iniciar esta longa e desafiante marcha.